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Percentual doçura

Foto do escritor: Sandra BraikSandra Braik


- Bom dia! Vocês têm chocolate?


Era uma loja que vendia chocolates, então as chances de haver não eram pequenas.


- Se nós temos chocolate? Não só temos como trabalhamos com o mais puro chocolate! - falou o homem.


Abriu mais os olhos e levantou as sobrancelhas, interessada. Parecia que seria lá mesmo que encontraria o que estava procurando.


- Temos esse 42,37% cacau, feito com o cacau amazônico - explicou o vendedor, apontando para uma gôndola quadrada de vidro transparente recheada de chocolates quadradinhos embalados em papel verde musgo. Um deles, desembrulhado, maior e disforme de tom marrom mediano, reinava num pedestal mais brilhante que coroa. 


Vendo a atenção que a mulher lhe concedera, continuou:


- Temos esse também, 58,982% cacau, feito com nossa produção do Amapá e um toque de macadâmia - e indicou a gôndola vizinha, onde as delícias foram revestidas com papéis vermelhos - ou esse outro, 61,1401% cacau, elaborado com nibs de Rondônia; ou ainda - e foi andando à gôndola central, maior e recheada de papeizinhos azul-turqueza, fazendo um gesto de reverência ao próprio pedação de chocolate acima deles, ainda mais escuro que o primeiro que lhe mostrara - Temos esse 77,83% cacau com raspas de laranja, confeccionado com o puro cacau das fazendas baianas, sem trabalho escravo.


"E os outros foram obtidos com trabalho escravo?" - indagou a si a cliente e perguntou:


- Hum... Você não tem um chocolate "normal"?


- Normal?  - disse o atendente com a mão no queixo, pensando. Nunca lhe haviam feito aquele questionamento. Com o dedo em riste pronunciando uma ideia silenciosa foi para a cozinha e, depois de um tempo breve, voltou com as mãos ocupadas.


- Temos este... - disse, mostrando o fruto, in natura, em uma de suas mãos, com seu formato exótico de bola de futebol americano ou, para os mais íntimos dos anos 90, lembrando o famoso brinquedo Vai e Vem, laranja com alças verdes.


A cliente começou a esboçar reação de quem ia pra outra loja e, percebendo que poderia perder um cliente, em tempo, o vendedor logo continuou:


-...que será feito especialmente para você pelo chocolatier - e segurava pela manga o chef de avental branco com seu chapéu de bico de confeitar - que é 99,987% limpinho, acho - falou rindo, mas arrependendo-se logo em seguida.


O cozinheiro olhou para as próprias mãos para ver como estavam. Marrons, mas não de chocolate e meteu-as a tempo nos bolsos da calça antes que a cliente visse. Não adiantou. A mulher olhou incrédula para a cena, ficou paralisada num vai nem vem e exclamou nervosa:


- Sim, já entendi o negócio de pureza e que você entende de matemática! Eu só queria comer chocolate! Esse é o percentual de vezes que volto aqui - esbravejou fazendo um círculo com as mãos e saiu da loja tão rápido a zero vírgula um por cento de bater o braço na porta.

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